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Entenda a Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)

Tudo o que você precisa saber sobre a Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)

A hipertensão arterial sistêmica (conhecida pela sigla HAS, que usarei várias vezes neste artigo) é o principal fator de risco para doenças cardiovasculares, que, por sua vez, são as maiores causas de mortes no planeta.

O QUE É E COMO É DEFINIDA?

A HAS era, até pouco tempo, definida como pressão arterial sistólica (sigla “PAS”, apelidada “pressão máxima”, que é aquela considerada quando as partes do coração chamadas ventrículos se contraem para bombear o sangue para o corpo) maior ou igual a 140 mmHg OU pressão arterial diastólica (sigla “PAD”, conhecida como “pressão mínima”, que é aquela considerada quando os ventrículos relaxam para receber o sangue no coração) maior ou igual a 90 mmHg) maior ou igual a 90 mmHg. Em linguagem popular, a hipertensão arterial sistêmica era considerada de 14 por 9 para cima.

Porém, em 2017, uma diretriz da American Heart Association (AHA) alterou essa classificação da hipertensão (e este artigo focará, quase sempre, em suas recomendações, embora outras diretrizes ainda não tenham assumido esse conceito e, portanto, não sendo errado um médico não adotá-la). A partir de então, para os que preferem as normas da AHA, passou funcionar da seguinte forma:

Normal: PAS < 120 e PAD < 80 (menor que “12 por 8”).

Ou seja, se a pessoa tem uma pressão arterial (PA) de “12 por 7” já não é considerada normal, pois o 12 está acima do ideal.

Obs: repare que o que chamamos de “12 por 8” é, na verdade, em termos corretos, o 120 por 80. Se quiser usar a linguagem leiga, mais simples, basta colocar uma vírgula antes do último dígito. Exemplo: 130×80 seria 13,0×8,0 (treze por oito) e 139×89 seria 13,9×8,9.

PA elevada (antiga pré-hipertensão): PAS 120×129 e PAD < 80.

Observe a palavra “e”, ou seja, se uma pessoa está com 120×80, já está fora do nível de PA elevada, pois embora sua pressão sistólica esteja dentro dos limites desse intervalo, sua pressão diastólica já entrou na faixa do 80 (e deveria ser no máximo 79). Tanto a PAS como PAD precisam estar nos níveis citados. Se uma extrapolar, vale o nível da maior delas.

Hipertensão estágio 1: PAS 130-139 e/ou PAD 80-89.

Repare na expressão “e/ou”, que, em outras palavras, significa que qualquer das condições acima presentes (sejam os valores de PAS ou PAD) já é suficiente para classificar o paciente nesse estágio. Como exemplo, um paciente com pressão arterial de 130×80 está no nível de hipertenso estágio 1; se PA 140×80 ou 130×90 já entrará no próximo estágio (2).

Hipertensão estágio 2: PAS ≥ 140 e/ou ≥ 90.

 Tanto um paciente com PA 140×90 quanto outro com PA 220×120 serão classificados como hipertensos estágio 2.

COMO ELA SURGE?

Mais de 90% das vezes não há uma causa definida, sendo então chamada “hipertensão primária” ou “hipertensão essencial”. Porém, vários fatores podem aumentar a probabilidade de uma pessoa desenvolver HAS: sedentarismo, tabagismo, etilismo, diabetes, má alimentação (com excesso de sal e carência de fibras), mau controle do colesterol e triglicérides, história familiar de hipertensão arterial sistêmica, além de obesidade.

Já em uma minoria de casos (3 a 10%), a hipertensão arterial sistêmica é consequência de uma doença de base (por isso é chamada de “hipertensão secundária”). As principais causas são: hipotireoidismo, hipertireoidismo, hiperparatireoidismo, feocromocitoma, Síndrome de Cushing, hiperaldosteronismo primário, apneia do sono, doença renal ou renovascular, acromegalia e coartação da aorta.

QUAIS OS SINTOMAS?

A importância cresce diante do fato de muitas pessoas serem hipertensas e não saberem, pois podem não apresentar sinais ou sintomas (logo, não deve esperar sintomas para se preocupar com os níveis de sua pressão arterial). Contudo, algumas manifestações são possíveis e cada pessoa pode apresentar variações e perceber o surgimento de cada uma com diferentes níveis de pressão arterial. Os principais são: cefaleia (“dor de cabeça”), dor nos olhos, dor torácica, “tontura”, agitação, palpitação.

QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS DA HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA?

Boa parte dos hipertensos podem não ter nenhum sintoma, mas, se não controlarem o problema, um dia podem sofrer um evento cardiovascular grave (como infarto do miocárdio, AVE/AVC ou morte súbita) como uma primeira manifestação clínica da HAS. Essa é a importância de se levar a sério essa “doença silenciosa”.

Além desses eventos agudos gravíssimos, a hipertensão arterial sistêmica não tratada, ao longo do tempo, irá degradando silenciosamente diversas estruturas e órgãos do corpo e poderá gerar consequências graves, como:

– Rins (insuficiência renal crônica)

– Coração (arritmias e insuficiência cardíaca)

– Olhos (perda visual por retinopatia hipertensiva e, talvez, maior risco de glaucoma)

– Vasos sanguíneos (contribui para aterosclerose e gera arterioesclerose, levando a doença arterial periférica, aneurismas e maior risco de demência vascular)

COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO?

Há dois métodos principais para realizar o diagnóstico de Hipertensão Arterial Sistêmica:

– Medida residencial da pressão arterial:

Realizada na própria residência do paciente (quando o mesmo possui equipamento devidamente calibrado e certificado), em uma unidade de saúde ou mesmo em farmácias/drogarias. São feitas várias aferições (medidas) da PA, anotadas (dia e horário), em um intervalo grande (cerca de um mês) entre a primeira e a última medida, se não houver sinais de gravidade, alto risco ou crises hipertensivas. Posteriormente o médico avalia os valores, faz a classificação e decide a abordagem. Essa estratégia é útil não apenas para diagnóstico e controle, mas também para incentivar a participação ativa do paciente no seu tratamento, estimulando-o à adesão terapêutica.

 Vale dizer que vários fatores interferem nos valores da pressão arterial e alguns deles devem ser evitados minutos antes da medida:

 – – Estresse emocional.

Pode elevar a PA. O paciente pode estar com “pressão alta” por ansiedade, depressão, susto, medo e não, por ser hipertenso (o que significa que a abordagem terapêutica não será com anti-hipertensivos).

 – – Hipertensão do jaleco branco.

É um tipo de pseudo-hipertensão, em que a pessoa, por estar em um estabelecimento de saúde ou diante de um médico/enfermeiro/técnico de enfermagem fica ansioso no momento da medida e, com isso, apresenta pressão arterial elevada. Quando ela mesma (ou um amigo/familiar) faz a aferição em outro ambiente, a PA é mais baixa.

 – – Dor.

Uma dor aguda ou crônica (em qualquer região do corpo) pode levar a aumentos momentâneos ou duradouros da PA.

 – – Consumo de bebidas alcoólicas, cigarro e bebidas estimulantes, como energético e café (cafeína).

Elevam a PA. Evitar o uso dessas substâncias por pelo menos 30 minutos antes de aferir a pressão arterial.

 – – Uso de alguns medicamentos.

Anticoncepcionais hormonais, corticoides e descongestionantes nasais podem aumentar a PA. Evitar descongestionantes nasais pelo menos 30 minutos antes de aferir a pressão arterial.

– – Atividade física.

Aumenta a PA. Evitar atividades até mesmo leves, como andar ou conversar muito, por pelo menos 10 minutos antes da medida.

– – Necessidades fisiológicas.

Desejo de defecar e, principalmente, de urinar podem elevar os níveis de PA. Portanto, antes da medida, certifique-se, pelo menos, de não estar com a “bexiga cheia”.

– – Tamanho inadequado do equipamento de aferição de pressão.

A braçadeira utilizada no paciente deve ter tamanho adequado de acordo com a circunferência de seu braço. Se ela for grande, poderá subestimar a PA (apontar uma pressão mais baixa que a real); se ela for pequena para o braço, poderá superestimar a pressão arterial (apontar um valor mais alto que o real).

 – Monitorização ambulatorial de pressão arterial (MAPA):

Geralmente é realizado quando após realizar os registros ao longo de semanas pelo paciente, ainda restam dúvidas. Eventualmente o paciente apresenta uma oscilação importante na pressão arterial, com dias abaixo dos níveis mínimos para classificá-lo como hipertenso (ou para definir um determinado estágio) e dias acima. Este método consiste na utilização de um equipamento especial, que ficará por 24 horas (ou mais) no braço do paciente, registrando sua PA diversas vezes ao dia. Após o procedimento, o médico avaliará todos os registros.

É NECESSÁRIO REALIZAR EXAMES?

O seu médico realiza o acompanhamento clínico, seguindo uma rotina de consultas e exames, de acordo com a gravidade da doença, a adesão do paciente e os recursos disponíveis. Idealmente, devem ser realizados uma série de exames complementares no momento do diagnóstico e repetidos periodicamente.

Alguns exames laboratoriais essenciais são:

– Sangue:

Hemograma, glicemia de jejum, creatinina, sódio, potássio, cálcio (às vezes com dosagem de albumina), TSH, colesterol total/frações e triglicérides. Se possível, dosar ácido úrico.

– Urina:

Urina tipo 1 (se possível realiza-se a relação albuminúria/creatinúria em amostra única de urina ou, pelo menos, proteinúria/creatinúria para triar dano renal).

– Eletrocardiograma

Na presença de alterações ou dúvidas, avaliar necessidade de radiografia de tórax e ecocardiograma.

COMO É FEITO O TRATAMENTO E O ACOMPANHAMENTO?

Em pessoas não hipertensas, é recomendável aferir a pressão arterial pelo menos 1 vez ao ano. Em pessoas no estágio de pressão elevada (pré-hipertensos) ou com vários fatores de risco é recomendável aferir a pressão arterial pelo menos duas vezes ao ano. Já em hipertensos, mesmo controlados, é importante pelo menos uma medida semanal.

Em relação ao tratamento, há dois tipos:

 Tratamento não farmacológico:

É indicado para todos os pacientes hipertensos e para aqueles que já são classificados como tendo PA elevada. Consiste em:

– Dieta DASH (frutas + vegetais + grãos. Evitar gorduras, principalmente saturadas. Dos laticínios, usar somente desnatados).

– Restrição moderada no consumo de sódio/sal (consumir 3,75 gramas de sal de cozinha ou 1,5g de sódio ao dia, incluindo todos os alimentos ingeridos ao dia).

– Consumo limitado de álcool (NO MÁXIMO duas doses ao dia para homens e 1 dose para mulheres). Obs: 1 dose equivale a cerca de 330 ml de cerveja/chop OU 30 ml de vodka/uísque/cachaça OU 100 ml de vinho.

– Reduzir e, idealmente, cessar tabagismo.

– Não consumir dose alta de cafeína (café, chá ou energéticos).

– Realizar atividade física regular. Trinta minutos ao dia de aeróbicos (caminhada, corrida, futebol, esteira, bicicleta, dança), contínuo, 2 a 5 vezes na semana. Pode-se também optar por atividades anaeróbicas, como musculação.

– Perda de peso (se obeso ou em sobrepeso), pois a cada 1 Kg de peso perdido, a pressão arterial se reduz em 1 mmHg.

– Aumentar consumo de potássio (laticínios desnatados, amendoim, banana, laranja, abacate).

– Evitar atividades e situações estressantes.

Tratamento farmacológico:

 Os medicamentos para tratar a hipertensão arterial sistêmica são inúmeros, porém só alguns são considerados como de primeira linha (por possuírem níveis aceitáveis de efeitos colaterais, ótima eficácia e diminuição comprovada na mortalidade e nas complicações da HAS), ou seja, os usados no início do tratamento medicamentoso. Os de segunda linha (que não apresentam tanta eficácia, que possuem muitos efeitos adversos ou que não influenciam tanto de forma positiva na prevenção de complicações ou redução da mortalidade) são fármacos complementares, que em alguns pacientes são importantes para associar aos de primeira linha.

Podemos ilustrar uma situação hipotética: Alguém pode não tolerar ou ter contraindicações para um medicamento de primeira linha e então precisar de um de segunda linha. Pode também ter uma hipertensão de difícil controle e necessitar de várias drogas, inclusive as de segunda linha. Ou ainda alguma outra doença que faz com que o uso de uma droga de segunda linha traga mais benefícios.

 – Fármacos de primeira linha para Hipertensão Arterial Sistêmica

Podem ser usados em monoterapia (tratamento com apenas um medicamento) ou em associação com outros.

– – Diuréticos tiazídicos (ex: hidroclorotiazida, Indapamida, Clortalidona): baixo preço e ótima eficácia/segurança em baixas doses. Não usar se tiver insuficiência renal grave (estágio IV ou V) ou gota. Evitar altas doses pelo alto risco de aumentar colesterol/triglicérides, aumentar ácido úrico no sangue e hiperglicemia, além de reduzir níveis de sódio, potássio e magnésio no sangue).

– – IECA (ex: Captopril, Enalapril) ou BRA (Losartana, Valsartana): De eficácia e segurança semelhante, possuem mecanismos de ação parecidos, por isso, por via de regra, se usa um IECA ou um BRA (não associar os dois). Algumas pessoas podem não tolerar os IECA (tosse), porém eles possuem custo bem mais baixo. Outro efeito colateral possível dos IECA, mas incomum, é o angioedema (“inchaço” de lábios, olhos, semelhante a um caso de alergia importante). IECA apresentam menor eficácia em pessoas negras.

– – BCC diidropiridínicos (Nifedipina, Anlodipino): São potentes, com maior risco de hipotensão em altas doses. Podem gerar edema de membros inferiores.

– Fármacos de segunda linha para Hipertensão Arterial Sistêmica

Se o paciente estiver usando corretamente um medicamento de cada uma dessas classes, na dose máxima tolerada, e a pressão arterial ainda não estiver controlada, deve-se associar uma quarta droga (a princípio, espironolactona). Se ainda forem necessárias mais drogas, o médico irá introduzindo sequencialmente outras opções de segunda linha:

– – Beta-bloqueadores (atenolol, propanolol, carvedilol): não usar em pacientes com glaucoma de ângulo fechado e em diabéticos tipo 1 (alto risco de hipoglicemia). Procura-se evitar também em diabéticos tipo 2 (possível maior risco de mortalidade). Não usar em asmáticos. Porém, em pacientes com DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) bem controlados ou com doença vascular periférica, se houver extrema necessidade pode usá-los, exceto o propanolol.

– – Vasodilatadores diretos (hidralazina, minoxidil).

– – Agonistas alfa 2 centrais (clonidina, alfametildopa).

– – Alfabloqueadores (doxazosina, prazosina).

– – BCC não diidropiridínicos (verapamil, diltiazem).

– – Diuréticos de alça (furosemida).

– – Inibidor direto da renina (alisquireno).

Caso um paciente seja hipertenso e jovem ou com hipertensão arterial resistente/de difícil, é prudente que o médico investigue a possibilidade de hipertensão secundária. Isso inclui avaliação da função renal e da existência de estenose renovascular (um “estreitamento dos vasos sanguíneos dos rins”). Caso não encontre alterações, é importante avaliar os distúrbios hormonais, investigando feocromocitoma, os níveis de aldosterona e função tireoidiana, por exemplo.

Contudo é importante deixar claro que alguns indivíduos obesos, inclusive jovens, muitas vezes deixam de ser hipertensos (ou pelo menos tem um melhor controle da pressão arterial) apenas com a perda de peso realizada de forma saudável.

Acompanhamento

Idealmente, de acordo com cada nível de pressão arterial se estabelece uma rotina de reavaliação médica:

 PA elevada

Consultas médicas a cada 3 a 6 meses. Seguir o tratamento não farmacológico e manter pressão arterial abaixo de 120×80 mmHg.

– Hipertensão estágio 1

O médico calculará o risco de o paciente desenvolver um evento cardiovascular grave (como infarto, AVC…) nos próximos 10 anos, usando o “escore ASCVD” ou, na impossibilidade, o “escore de Framingham”. Se houver baixo risco (escore < 10%), iniciará apenas tratamento não farmacológico e reavaliará o paciente em 3 a 6 meses para decidir como será a continuação da terapêutica. Se houver um alto risco (escore ≥ 10% ou se essa pessoa já possui história de infarto, AVC, insuficiência renal crônica ou diabetes mellitus), iniciará tratamento não farmacológico + farmacológico, com um dos fármacos de primeira linha. Se possível, deve ser reavaliado mensalmente (até ajustar os medicamentos), visando uma PA abaixo de 130×80.

– Hipertensão estágio 2

Nesse estágio o médico já iniciará com duas drogas anti-hipertensivas (embora possa optar por ser mais cauteloso em idosos para não correr risco de hipotensão). Se possível, o paciente deve ser reavaliado mensalmente (até ajustar os medicamentos), visando manter a PA abaixo de 130×80. Entretanto, caso haja uma boa tolerância medicamentosa, pode-se buscar um alvo abaixo de 120×80 mmHg. Por outro lado, em casos excepcionais, como AVE ou AIT (Acidente Isquêmico Transitório) recentes, pode-se aceitar manter a PA apenas abaixo de 140×90 mmHg. É importante manter o monitoramento domiciliar da pressão arterial continuamente para avaliar se o alvo terapêutico está sendo mantido.

Vale dizer que exceto com um motivo muito específico e excepcional, com prescrição de seu médico (de preferência cardiologista), não se deve realizar as associações abaixo (por aumento de efeitos colaterais, baixíssimo efeito aditivo e risco de toxicidade):

– Usar dois medicamentos de mesma classe (ex: propanolol + atenolol, captopril + enalapril, hidroclorotiazida + clortalidona ou nifedipina + anlodipina).

– – Tomar dois medicamentos de classes diferentes, porém com mecanismo de ação semelhante (ex: BRA + IECA, ou seja, losartana + captopril ou losartana + enalapril).
*Alguns especialistas até aceitam e realizam a associação IECA + BRA em um, e somente um, caso: perda importante de proteínas na urina (> 1 g/24h), além de colocar um alvo ainda mais baixo de PA ideal.

Observação: Como disse no início, a maioria das recomendações deste artigo seguem as diretrizes americanas de 2017. Porém, as demais sociedades médicas/cardiológicas mundiais ainda adotam como alvo do tratamento (meta universal) pra hipertensão, manter o valor manter abaixo de 140×90 mmHg, mesmo se o paciente possuir um alto risco cardiovascular (antigamente recomendava-se valores menores de pressão para hipertensos que também fossem diabéticos ou com doença renal crônica). Como defende o grande cardiologista e professor em clínica médica Dr Ronaldo Gismondi, do qual tive o privilégio de ser aluno, devemos ter sempre bom senso na hora de estabelecer um alvo terapêutico para um hipertenso: se o paciente tem função renal boa, com níveis adequados de potássio, com boa adesão terapêutica (inclusive não farmacológica), pode-se usar mais medicamentos a fim de manter uma PA mais baixa. Porém, se o paciente não tem boa adesão, não pratica atividade física, tendo níveis de potássio sanguíneo mais elevados e função renal não muito boa, devemos ter cuidado com o uso de muitos medicamentos (polifarmácia). Afinal, nesses pacientes, o excesso de drogas poderá trazer mais prejuízos do que benefícios.

Importante!

Perceba que, ao mudar a definição de hipertensão arterial para níveis mais baixos (130×80 mmHg), pretendeu-se incentivar as terapias não farmacológicas (ao contrário do que dizem alguns, que seria pressão da indústria farmacêutica para mais pessoas consumirem anti-hipertensivos). Afinal, um tratamento medicamentoso mais precoce só ocorrerá nos pacientes com alto-risco cardiovascular. Os demais continuarão sem medicamentos. Embora com essa nova classificação o número de hipertensos no mundo aumente, também aumentará a preocupação, o interesse e a disposição das pessoas a aderirem às terapias não farmacológicas.

SITUAÇÕES ESPECIAIS:

HAS em pediatria

Geralmente a causa está ligada aos rins ou à aorta (principal artéria do corpo) e há duas formas de ser diagnosticada: simplesmente avaliando o valor da pressão arterial (como em adultos) ou analisando uma tabela que considera a idade e a estatura. Vale lembrar que o tamanho do aparelho deve ser apropriado ao braço da criança.

O ideal é que a pressão arterial seja verificada anualmente em crianças a partir dos 3 anos de idade (ou até mais precocemente, se houver alto risco de desenvolver a doença). Contudo, nas obesas ou outras doenças crônicas que aumentam risco cardiovascular, é importante aferir a PA em todas as consultas de rotina com o pediatra ou clínico.

Não há necessidade de eletrocardiograma rotineiro nas crianças com hipertensão, porém, nas que necessitem de uso de medicamentos anti-hipertensivos (ou seja, que não conseguiram controlar a PA apenas com medidas não farmacológicas), uma avaliação por especialista, de preferência realizando um ecocardiograma, deve ser realizada.

O tratamento medicamentoso geralmente é feito com captopril. Hidroclorotiazida e nifedipina são outras opções bastante usadas.

HAS em obstetrícia

Se a gestante já era hipertensa, o medico avaliará as medicações. Deverá suspender Beta-bloqueador, IECA e BRA, caso ela faça uso. Diuréticos não precisam ser suspensos, embora também não sejam iniciados na gestação. Iniciará então o uso de Alfametildopa ou hidralazina. A nifedipina, embora possa ser usada, é geralmente reservada para uso eventual em crises hipertensivas e/ou pré-eclâmpsia. Durante a amamentação prefere-se usar alfametildopa, algum IECA ou nifedipina.

HAS em geriatria

Em idosos é aceitável um nível de PA mais elevado e cada caso deve ser individualizado pelo médico. Em média, níveis até 150 mmHg de pressão sistólica (a chamada “pressão máxima”) podem ser apenas observados, para evitar o risco de hipotensão. Porém tudo depende de análise individual. Se o idoso é saudável, com boa adesão terapêutica (inclusive não farmacológica), podemos seguir a meta geral para hipertensos, que é manter PA abaixo de 140×90 mmHg (lembrando que a meta geral da AHA é manter abaixo de 130×80 mmHg). Já nos idosos com outras doenças crônicas, com limitação importante de movimentos, com expectativa de vida não muito alta, pode-se aceitar uma PAS até 160 mmHg.

Por diminuição da elasticidade vascular, a diferença entre a pressão sistólica (PAS) e diastólica (PAD) no idoso aumenta. Ou seja, é comum encontrarmos um 140×70 mmHg. Porém devemos ter cuidado se a PAD estiver se aproximando de 60, pois é um nível de alerta, devendo talvez até reduzir os anti-hipertensivos.

Crise hipertensiva

Ocorre quando a pressão arterial está acima de 180×120 mmHg, embora esses valores sejam relativos, uma vez que algumas pessoas com níveis pressóricos abaixo desse patamar já possam ter consequências danosas. É importante diferenciá-la das pseudocrises hipertensivas, pois estas são elevações momentâneas de pressão, desencadeadas por dores, desconfortos, ansiedade, estresse emocional ou por má adesão ao tratamento medicamentoso que realizava, seja da hipertensão ou de outra doença. Esses pacientes receberão tratamento de acordo com o problema que desencadeou a elevação da pressão arterial (analgésicos, sedativos, relaxantes musculares, anti-inflamatórios…).

As crises hipertensivas podem ser divididas, de forma didática, em dois grupos:

Urgência hipertensiva

Caracteriza-se por pressão arterial acima de 180×120 mmHg, sem que essa alteração esteja provocando lesão ou piora de lesão prévia em algum órgão do corpo. Exemplo: paciente com PA 200×120 mmHg, com discreta dor em região da nuca, sem alterações ao exame físico do médico e sem alteração ao eletrocardiograma. Precisa ser tratada com brevidade? Sim, mas não precisa ser uma redução brusca da PA e nem de anti-hipertensivos venosos, pois esse paciente, embora tenha maior risco de sofrer complicações, ainda não possui sinais de lesões agudas. Nesses casos geralmente é indicado repouso, observação, medicação oral e reavaliação dos medicamentos em uso (caso não tinha diagnóstico de hipertensão, o médico prescreverá dois anti-hipertensivos de primeira linha e iniciará um acompanhamento).

– Emergência hipertensiva

Pressão arterial acima de 180×120 mmHg, sendo que essa alteração está provocando lesão ou piora de lesão prévia em algum órgão do corpo, com risco iminente de morte. Exemplo: paciente com PA 190×120 mmHg, com lábios e dedos arroxeados, queixando-se de falta de ar e suando muito. Quando o médico ausculta a região dos pulmões, percebe vários ruídos. O eletrocardiograma apresenta diversas alterações, bem como a radiografia de tórax, se disponível.  Trata-se de uma emergência hipertensiva, pois a PA elevada culminou com um evento grave (neste caso, um edema agudo de pulmão, mas poderia ser um infarto agudo do miocárdio ou um AVE/AVC), que se não tratado imediatamente poderá levar o paciente à morte. Necessita de tratamento imediato, com medicações injetáveis, além de internação, para reduzir o nível da PA rapidamente e o risco de parada cardio-respiratória.

Hipertensão arterial resistente

Chamamos de hipertensão arterial resistente quando o paciente não consegue ter sua pressão controlada com o uso de três ou mais anti-hipertensivos. Também consideramos HAS resistente quando ele necessita de pelo menos quatro anti-hipertensivos para conseguir esse controle.

Geralmente os pacientes com esse tipo de “hipertensão rebelde” são aqueles sem uma causa específica para o problema, mas que possuem diversos fatores associados, como obesidade e diabetes, por exemplo. Entretanto, a hipertensão secundária também deve ser descartada.

Causas relativamente frequentes de hipertensão resistente são: transtornos da tireoide, abuso de álcool, apneia do sono, doença renal e uso excessivo de sal ou de anti-inflamatórios.

Conclusão

Seria bom se toda família possuísse um aparelho de pressão em casa. Pode ser um aparelho digital/automático, desde que seja de braço. O de punho “quebra o galho” na ausência de outro (ou seja, é melhor do que nada), porém vale a pena investir poucos reais a mais e adquirir um mais confiável.

Autor: Dr Wésley de Sousa Câmara
Abril de 2018

Referências:

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7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Sociedade Brasileira de Cardiologia. ISSN-0066-782X. Volume 107, Nº 3, Supl. 3, Setembro 2016

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QASEEM, Amir MD, PhD, MHA; WILT, Timothy J. MD, MPH, et al. Pharmacologic Treatment of Hypertension in Adults Aged 60 Years or Older to Higher Versus Lower Blood Pressure Targets: A Clinical Practice Guideline From the American College of Physicians and the American Academy of Family Physicians. Ann Intern Med. DOI: 10.7326/M16-1785. Janeiro 2017.

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