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Saúde a Fundo
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Entenda tudo sobre HIV e AIDS (SIDA)

O que é HIV? Como age? Por que é tão maléfico? Como é transmitido? O que a AIDS tem a ver com tudo isso?  Enfim, são questões que sempre aparecem quando tocamos no assunto.

Visão geral sobre o HIV

  • O Vírus da Imunodeficiência Humana, designado pela sigla HIV, foi descoberto na década de 1980.
  • Teve sua origem, provavelmente, a partir do vírus SIV, que causa uma doença semelhante à AIDS em macacos.
  • Afeta cerca de 37 milhões de pessoas no mundo, sendo a maioria africanos.
  • Destes, 18 milhões são mulheres (com 15 anos de idade ou mais).
  • Anualmente, cerca de 2 milhões de pessoas são infectadas no mundo.
  • 55% dos infectados tem acesso a tratamento adequado.
  • Aproximadamente 1 milhão de pessoas morrem ao ano decorrente de complicações da AIDS (sendo a principal, a tuberculose).
  • A mortalidade vem caindo ao longo dos anos, devido acesso crescente às terapias antirretrovirais.
  • Só no Brasil, estima-se que existam cerca de 630 mil pessoas contaminadas com o HIV.

Há dois tipos de HIV: o HIV-1 (o mais comum e que culmina com a AIDS clinicamente mais severa) e o HIV-2 (que inicialmente era restrito ao continente africano, mas que teve o primeiro caso confirmado no Brasil em 2010). São vírus geneticamente bem diferentes, porém ambos causam a AIDS (ou SIDA), que significa “Síndrome da Imunodeficiência Adquirida”. Esse vírus é, provavelmente, o mais completo de todos, no que diz respeito a mecanismos de escape do nosso sistema imune (que nos protege das mais variadas infecções).

Transmissão

A principal forma de transmissão é a via sexual (em relações homo e heterossexuais), sendo importante também a via parenteral, ou seja, a contaminação através de transfusões sanguíneas, de compartilhamento de agulhas contaminadas entre usuários de drogas ou do contato acidental (geralmente envolvendo profissionais da saúde) com sangue infectado. Por fim, tem-se a transmissão vertical, que acontece quando a mãe infectada passa o vírus para o bebê, durante a gestação, no momento do parto ou durante a amamentação. Vale destacar que o HIV não é transmitido através de picada de insetos, nem de contato com saliva, ou seja, compartilhar copo ou beijar alguém contaminado não traz problemas. Porém, algo deve ser dito: embora seja muito raro, é possível ocorrer a transmissão também através do sexo oral (caso existam feridas, cáries, aftas ou micro ferimentos na boca), além do fato de que as “amídalas” e a adenoide podem possuir “afinidade” pelo vírus, que poderia entrar por esses locais.

Nos últimos anos tem-se observado que pessoas com carga viral indetectável tem risco praticamente zero de transmitir o HIV em relações sexuais. Porém, os cuidados devem ser mantidos.

Outro ponto que deve ser considerado é que pessoas com outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs, antigamente chamadas DSTs) tem uma maior chance de se infectar com o HIV, assim como de repassá-lo, caso já esteja infectada. Isso acontece porque as ISTs geralmente provocam lesões nos órgãos genitais, tornando maior a porta de entrada (e de saída) para o vírus.

Infecção e multiplicação viral

Após alcançar o indivíduo, o HIV infectará e se multiplicará em várias células do Sistema Imune (chamadas “linfócitos” ou “células T”, que possuem uma proteína chamada “CD4+”), destruindo-as. Outras células imunológicas englobarão essas partículas virais e seguirão para os linfonodos (que são aglomerados de células de defesa, onde acontecem as “ínguas” quando temos alguma infecção) do corpo para destruí-las. Porém, o vírus também tem a capacidade de infectar todas essas células. Assim, ao invés de eliminar a infecção, ao englobarem o HIV, essas células acabam fazendo a disseminação da mesma.

No início, esse sistema protetor do organismo ainda é funcionante e destrói a maior parte das células infectadas. Porém, aí reside o problema: destrói a maioria, mas não, todas! Esses vírus que ficaram, continuarão se multiplicando, enquanto o corpo do indivíduo luta para destruir as células infectadas. Durante esse período (chamado de latência clínica), que dura em média 8 anos (mas pode variar de 1 a mais de 20 anos), a pessoa não apresenta sintomas e tem uma vida normal. Entretanto, mesmo assintomática, já pode contaminar outras pessoas.

Durante a nossa vida estamos sujeitos a inúmeras infecções, por diversos outros micro-organismos e, conforme acontecem, degradam ainda mais o nosso sistema imunológico. Isso porque o HIV se multiplica sempre que a célula infectada é ativada para lutar contra algum invasor (podendo ser, até mesmo, o próprio HIV). Então, quando qualquer vírus invade o corpo desse indivíduo, essas células de defesa (que estão infectadas) se ativarão para conter o novo invasor. Era tudo o que o HIV precisava, pois assim, se multiplica cada vez mais, aumentando a capacidade de infecção. Resumindo: quanto mais o sistema imune tenta controlar o HIV e os outros vírus (até mesmo o da gripe ou do resfriado comum), mais ele piora a situação. Não é assustador?

Sintomas

Esse aumento nos níveis do HIV e a maior destruição dessas células infectadas fazem com que o indivíduo passe a ter problemas. O que não causava sintomas nos primeiros anos (exceto nos primeiros dias após o contágio, quando podem ocorrer febre, mal-estar e “ínguas”, ou seja, sintomas comuns a diversas infecções virais) começa aos poucos a provocar emagrecimento, febre, diarreia, entre outros sintomas. Esse período de transição é conhecido como “pré-AIDS”.

Vale destacar que uma pessoa com HIV tem um risco maior de doenças cardiovasculares, como AVC, infarto do miocárdio e doença arterial periférica. Os motivos são tanto a ação do vírus quanto a efeitos colaterais (piorando o perfil das gorduras no sangue) dos medicamentos antirretrovirais.

O problema piora gradativamente, ocorrendo infecções oportunistas, causadas por bactérias, por fungos, por protozoários e até por outros vírus, como o causador do herpes. Podem ainda aparecer alguns tumores e doenças neurológicas. Essa fase é a conhecida AIDS. Uma pessoa não tratada, após entrar nessa fase, dificilmente sobreviverá por mais de 2 ou 3 anos. Portanto, a AIDS não é uma simples doença. É o estágio final de uma infecção iniciada muitos anos antes e corresponde a um momento em que o sistema imune do indivíduo já não consegue atuar contra um simples micro-organismo (que poderia ser inofensivo a uma pessoa normal), podendo levá-lo à morte.

Diagnóstico

É realizado um teste sorológico (a partir do sangue), procurando anticorpos (produzidos pelo corpo para neutralizar o vírus), e acontece em várias etapas (ELISA + WESTERN BLOT), sendo o resultado extremamente confiável (embora, assim como qualquer exame laboratorial, não tenha 100% de acerto). É possível sim haver resultados falsos-positivos (risco de 0,0005% – 1 em cada 250 mil resultados positivos) e falsos-negativos (cerca de 0,001% – 1 em cada 100 mil resultados negativos). Porém, isso é considerado pelo médico, que associa a clínica do paciente, sua história e o resultado do exame. Aliando esses três fatores, a probabilidade de acerto é de praticamente 100%. Há ainda o chamado “teste rápido”, disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).

É importante destacar que existe um período em que a pessoa pode estar infectada, mas não ser detectável pelo exame. É a chamada “janela imunológica”, que é o tempo que o corpo leva para produzir anticorpos contra partículas virais a nível detectável pelo teste. Por exemplo: se o indivíduo é contaminado hoje, em média levará de 2 a 3 semanas para ter uma alteração nos padrões do exame laboratorial. Ou seja, não adianta fazer o exame pouco tempo após uma relação sexual desprotegida, pois quase certamente o resultado será negativo, mesmo que esteja infectado. Esse período (de não detecção) pode se estender para até 6 meses em algumas pessoas.

Jamais doe sangue quando suspeitar que pode estar contaminado com o HIV. Se a infecção for recente, o teste não detectará nada, você acreditará que não está infectado e acabará infectando outra pessoa! O sistema público de saúde possui centros de testagem, que são gratuitos e anônimos. Se tem alguma suspeita, procure um desses locais (postos de saúde, policlínicas ou hospitais) e cuide-se. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais eficiente será o tratamento.

Tratamento

Quando iniciar

Quando o paciente é sabidamente infectado, será periodicamente monitorado através da contagem do número de células de defesa e da carga viral presentes no sangue, influenciando na forma de tratamento. As normas variam com certa frequência, mas atualmente (2017), no Brasil, o tratamento é indicado assim que o diagnóstico de infecção pelo HIV é realizado, independentemente dos níveis de células de defesa (linfócitos CD4+) e de sintomas. O mesmo vale para crianças e adolescentes. Gestantes iniciam o tratamento com 14 semanas de gestação e não mais o interrompem.

Os medicamentos

Existem várias drogas antivirais eficientes e atuam em diferentes momentos do ciclo de multiplicação viral. No Brasil, o sistema público de saúde fornece esses medicamentos gratuitamente. Os tratamentos tradicionais são os “coquetéis”, ou seja, uma combinação de medicamentos diferentes. Essa combinação dos anti-retrovirais é feita de acordo com as características individuais do paciente (como intolerância a algum medicamento), os problemas de saúde que porventura possa ter e conforme a sensibilidade dos vírus presentes em seu organismo. Assim, um complementa o outro, o que aumenta a eficiência do tratamento. Jamais deve-se usar apenas um medicamento para tratar.

O esquema tido como primeira opção para iniciar o tratamento em adultos é: Tenofovir (TDF) + Lamivudina (3TC) + Dolutegravir (DTG), tomados 1 vez ao dia, com alimentos. Cuidados devem ser tomados com a interação com outras drogas, como Fenitoína, Fenobarbital, Carbamazepina e Oxcarbamazepina, por exemplo. Porém essa associação é alterada de acordo com o contexto, doenças associadas, quadro clínico e intensidade dos efeitos colaterais em cada paciente. Outros fármacos muito usados em pacientes soropositivos são: Efavirenz (EFZ), DFC (ou “quatro em um”), Raltegravir (RAL), Abacavir (ABC) e Zidovudina (AZT).

Um medicamento que surgiu nos últimos anos e ainda não muito conhecido e utilizado no Brasil (pelo custo elevado) é o Truvada® (Emtricitabina + Tenofovir), também tomado diariamente. É usado eventualmente como parte da terapia contra o HIV em adultos e, principalmente, como forma de prevenir a infecção por esse vírus. Em alguns estudos (que tem algumas limitações), o uso diário desse medicamento preveniu a infecção pelo HIV em 100% dos casos, em relações sexuais desprotegidas. Porém é importante dizer: JAMAIS esse medicamento deve ser usado como alternativa à camisinha! Além de não haver ainda uma comprovação que essa droga previna em 100% a infecção pelo HIV em todo tipo de relação, há inúmeras outras doenças (como Sífilis, Gonorreia, Neisseria, Tricomoníase, Hepatites B e C…) que podem ser transmitidas via sexual.

Objetivo terapêutico

É importante dizer que diferentes pessoas respondem de forma diferenciada aos tratamentos. O objetivo é fazer com que o paciente passe a ter uma carga viral indetectável no sangue, além da reposição (aumento) das células do sistema imune (CD4+). Ter carga viral indetectável no sangue não significa cura e também não é sinônimo de carga viral zero. A maioria dos testes identifica um mínimo de 50 cópias/ml de partículas virais. Se tiver 30 cópias, o teste apontará como “indetectável”. Porém, o vírus pode sofrer alterações em seu DNA e “tornar-se resistente” ao tratamento, obrigando o médico a trocar os medicamentos. Por isso, não existe um tratamento definitivo ou cura para a infecção pelo HIV.

O lado ruim é, além do número de comprimidos a serem ingeridos diariamente. Além disso, podem ser vários os efeitos colaterais provocados, como anemia, diminuição na quantidade de plaquetas (dificuldade de coagulação do sangue) e pancreatite. Contudo, esses efeitos adversos dependem dos medicamentos usados.

Obs: certa vez presenciei uma cena lamentável em um programa religioso da TV aberta. A pessoa alegava que recebeu uma cura sobrenatural na igreja e o bispo mostrou o exame para comprovar a suposta cura. Infelizmente o exame apenas comprovava que a pessoa tinha carga viral indetectável, ou seja, em um nível tão baixo que o teste não conseguia detectar. Porém, jamais podemos dizer, pelos nossos testes, que uma pessoa tem carga viral zero! Ou seja: a pessoa provavelmente não estava curada e sim, com boa resposta ao tratamento antirretroviral. 

Resumindo

Inicialmente, o HIV era considerado vírus de homossexuais masculinos (já que os primeiros infectados descobertos pertenciam a esse grupo) e de ricos. Porém, atualmente, há uma maior incidência e prevalência da infecção em indivíduos de 25 a 40 anos e heterossexuais, com uma tendência de interiorização e de pauperização da epidemia, ou seja, um aumento da transmissão em cidades interioranas e entre as camadas mais pobres da população.

Todas as estratégias para evitar a infecção, como o uso de preservativos nas relações sexuais (vaginais, orais e anais), o não compartilhamento de agulhas e seringas e o não contato com sangue de outras pessoas, devem ser seguidas. Para os indivíduos infectados, vale o mesmo, para que não contribua para a disseminação do vírus. Além disso, mesmo o indivíduo HIV + deve se proteger de possíveis outras infecções pelo vírus novamente. Isso porque o HIV possui vários subtipos (linhagens) e a “mistura” de dois diferentes poderia provocar a formação de um terceiro subtipo, que pode ser muito mais patogênico, nocivo, e agravar a doença. Ademais, a existência de mais de um tipo (como HIV 1 e HIV 2) ou de mais de um subtipo, pode tornar o tratamento atual ineficaz para este indivíduo. Então jamais pense: “já tenho HIV mesmo, não preciso de preservativo”. Além de irresponsável, é um pensamento perigoso também para si mesmo.

Considerações finais

Aproveitando o momento, vale dizer que o indivíduo com o vírus não deve ser chamado de aidético. Afinal, além de ser um termo pejorativo, uma pessoa HIV+ não necessariamente terá AIDS. Até porque o objetivo dos tratamentos é justamente impedir ou retardar esse estágio. Outro ponto a ser destacado é que não devemos aceitar o preconceito e a discriminação com/dessas pessoas, pois apenas sofrem de uma infecção viral, assim como quem tem algumas hepatites, herpes ou gripe!

Por fim, um conselho às pessoas com HIV: faça um acompanhamento clínico regular, com rastreio para problemas cardiovasculares e para os principais tipos de tumores, visto que pessoas infectadas tem um risco maior de desenvolver um câncer. Além disso, procure abandonar o tabagismo e não consumir bebidas alcoólicas em excesso. Siga cuidadosamente o tratamento, tomando todos os antivirais corretamente e sempre fazendo o monitoramento da carga viral com seu médico, principalmente as mulheres grávidas, evitando que seu filho adquira o vírus. Assim, com esse nível viral baixíssimo (às vezes indetectável), poderá viver praticamente tanto quanto às pessoas não infectadas. E o melhor de tudo: com qualidade de vida!

Curiosidade: 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate à AIDS!

Autor: Dr Wésley de Sousa Câmara

Referências:

Tortora, Gerard J.; Microbiologia; Ed. ARTMED; 6ª Edição.

http://www.aids.gov.br/

https://unaids.org.br/wp-content/uploads/2017/12/UNAIDSBR_FactSheet.pdf

TAVARES, Walter; Rotinas de Diagnóstico e Tratamento das Doenças Infecciosas e Parasitárias; 2005; Ed. Atheneu

Rodger, Alison MD et al. Sexual Activity Without Condoms and Risk of HIV Transmission in Serodifferent Couples When the HIV-Positive Partner Is Using Suppressive Antiretroviral Therapy. JAMA. 2016;316(2):171-181. doi:10.1001/jama.2016.5148.

Metsch L R, PhD et al. Effect of Patient Navigation With or Without Financial Incentives on Viral Suppression Among Hospitalized Patients With HIV Infection and Substance Use: A Randomized Clinical Trial. JAMA. 2016;316(2):156-170. doi:10.1001/jama.2016.8914.

Günthard, MD et al. Antiretroviral Drugs for Treatment and Prevention of HIV Infection in Adults2016 Recommendations of the International Antiviral Society–USA Panel. JAMA. 2016;316(2):191-210. doi:10.1001/jama.2016.8900.

Quem desejar um estudo aprofundado sobre as evidências de o HIV ser o causador da AIDS, acesse:
http://quackwatch.haaan.com/hiv-aids.html

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